Fahrenheit 451 é o título de um livro de Ray Bradbury (http://www.raybradbury.com/books/fahrenheit451.html) na linha de 1984 de George Orwell , e inspirou o diretor François Truffaut a rodar um filme homônimo, único filme seu em inglês. E trata-se de o melhor filme de “ficção científica” de todos os tempos (aguardo a primeira pedra!).

A estória se passa em um futuro não muito distante, onde uma sociedade totalitária é controlada pela “Família”. As pessoas que vivem nessa sociedade são educadas a desempenharem certas funções sociais, sem se questionar muito sobre o que estão de fato realizando. O sucesso deste estado de obediência e paz social deve-se, especialmente, ao cuidado com a educação. Nas escolas, as crianças aprendem a não-ler e que livros são para se queimar.

Assim, somos apresentados ao dócil Montag (Oskar Werner), um bombeiro (fireman) que, ao contrário do que o nome de sua profissão possa sugerir, não tem a tarefa de apagar incêndios (uma vez que as casas são todas a prova de fogo, ou ao menos é isso que a “famíla” diz). Os fireman são responsáveis por atear fogo nos livros, e perseguir, prender e executar as pessoas encontradas junto aos livros. Algo como a Gestapo ou a PM.

é fogo!

Tudo vai bem com Montag. Ele queima livros, faz seu trabalho, e se sente feliz e normal. Está prestes a ser promovido a capitão. Sua bela esposa vive tranquila e feliz em seu lar, sempre envolvida em seus programas de TV (aliás, é magnífica a cena do programa de tv interativo. Penso que farão da TV digital algo semelhante). É a paz soberana, a suma felicidade.

Entretanto, Montag começa a se inquietar quando é questionado por uma jovem da resistência se ele alguma vez havia lido um dos milhões de livros que queimou.

–Detalhe da resistência (tão poético!): já que não se pode guardar os livros, seus guerrilheiros devem decorar na íntegra seus livros prediletos. Assim, acabam por se tornar os próprios livros. Vivem em uma comunidade-biblioteca. É sensacional.

Montag então começa a ler. E compreende porque a Família sempre havia alertado sobre a periculosidade dos livros: eles propiciam o pensar por si mesmo. E quando você começa questionar as coisas, deixa de ser feliz. Por que? A sociedade revela-se para Montag como algo horrível.

Ele se dá conta de que é dominado, e que não é um membro da Família, como esta pretendia. Entende que ser um parente desta coisa é algo abominável, e que a felicidade e a paz não são tão felizes e pacíficas como se imaginava. Decide então colaborar com a resistência, e prepara uma estratégia para tentar derrubar a Família e livrar o povo de suas viseiras. No entanto, não vemos no filme o desfecho deste contra-golpe.

Acredito que Truffaut, inspirado nos mais belos ideais pré maio de 68 (o filme é de 1966), deixa em aberto o confronto final por razões óbvias. Este futuro não muito distante é aqui em nossa contemporaneidade; a sociedade totalitária é esta sociedade de consumo, da ideologia do capital, que impõe o pensamento único, o individualismo, a “ordem”.

O paralelo, infelizmente, por muitas vezes cruza com o real. Portanto, penso que devemos reconhecer que, de 68 pra cá, sem dúvida, a resistência tem sofrido derrotas amargas e sucessivas. Me apoio no Zizek para defender que um dos equívocos mais sérios, e que ironizam sem piedade os tais “radicais de esquerda” da atualidade, está no lema herdado daquela época: sejamos realistas, exijamos o impossível. Justamente. Se os tais radicais de esquerda da atualidade exigissem o possível, estariam arriscando sua própria posição privilegiada dentro da sociedade, que é a de poder se dar ao luxo de ser radical de esquerda.

Continuo com minha campanha pelo Voto no Dia Útil. Ao invés de participarem deste festival demagógico, que tem o nome de “eleições”, que a data agendada para o evento se transforme em um dia de reflexão sobre o que de fato queremos como sociedade; o que é e o que significa. Assim, transformamos este ultraje contra a democracia em um dia realmente útil para o país. Acho incrível como os generais da ditadura ainda respiram. Diria mais, que desenvolveram um projeto de “ditadura branca”, isto é, não precisam nem mais aparecer para que seus interesses e de seus aliados sejam defendidos e preservados. A luta pelas “Diretas Já” (embora reconheça todos os avanços que ela trouxe no que diz respeito às liberdades civis) fracassou. Ela permitiu que, descaradamente, pessoas ligadas ao regime ditatorial se envolvessem na política “livre”, como é o caso de Sarney, Maluf, Tuma (que era do DOI-CODI!!!), ACM, Delfim Neto, entre tantos outros. Agora podemos votar. Mas somente (ou em grande parte) nesta trupe de gangsters. Que beleza.

VOTE VOCÊ TAMBÉM POR UM DIA ÚTIL!

Aspas: não dá mais

setembro 26, 2006

poster da guerra civil espenhola 

Votei no Lula. Mas isso não faz de mim um “lulista”. Votei porque imaginava que seria interessante a “esquerda” no poder; queria a queda do tucanato e essas coisas todas. E é justamente por horror ao que seja esta coisa, o tucanato, que me manifesto: não podemos tolerar o que a coligação PSDB/PFL está fazendo neste momento, às vésperas da eleição.

Apenas para que fique claro: hoje não voto mais. Acredito que não é através de vias institucionais que conseguiremos modificar a estrutura social que vemos hoje, a saber, a da exclusão, da formação do “exército de mão-de-obra”, da imposição da lógica do Capital. Os movimentos sociais ainda representam a única esperança para este Brasil, e percebo na educação, isto é, no exercício do livre pensamento, uma base sólida para a construção de uma nova sociedade. Mas, ainda assim, penso haver tantas ressalvas em “movimentos sociais”, o que este tópico fica para uma outra ocasião (o debate virtual?).

No entanto, apenas para criar um pólemos, direi que sou a favor da desobediência civil. Proponho assim a campanha: “voto no dia útil“, que é um dia em que as pessoas farão qualquer coisa – de preferência refletir sobre o que é a sociedade – mas, sobretudo, não comparecerão à seção eleitoral, por, dentre outras coisas, não concordarem com esta arbitrariedade que é o voto obrigatório, que (não se enganem senhores), é feito mais para defender o “curral” eleitoral do que a “democracia”.

Sabemos que o governo Lula está marcado por escândalos. Acredito ainda que, se reeleito, irá mudar para o PSDB e depois, sem sequer corar, aprovará alguma lei de “fidelidade partidária”. Mas o que vimos na mídia não foi justamente uma tentativa de se fabricar estes escândalos? Em tudo se tentava enfiar o presidente no meio; bradavam “Ele sabia”, como se Lula fosse um ente metafísico onisciente – que por definição tudo sabe e é impossível que haja algo que não saiba.

Mas agora, na semana da eleição, o tucanato (leia-se FHC, Geraldo Alckmin [o GeraRdo (imagine um sotaque Mazzaropi)], Antônio Carlos Magalhães [o PFL também é “tucanato”], Aécio “Pó” Neves, enfim, essas aves todas) quer nos fazer acreditar no escândalo da “compra do dossiê”, isto é, que membros do PT compraram um dossiê CONTENDO PROVAS DO ENVOLVIMENTO DE JOSÉ SERRA E GERArDO EM ALGUMA FALCATRUA,  e por isso, ou seja, por investigar a corrupção alheia, são os membros do PT que vão presos.

milico facistão não dá! põe uma flô!

Concordo com o Zé Simão, que diz que este é o país da piada pronta. Até agora, ninguém falou no que é que havia no tal dossiê do GeraRdo (aliás, um parêntesis: eu seria um marqueteiro de mão cheia! queriam popularizar a campanha do Alckmin, porque Alckmin era muito grã-fino, e botaram Geraldo que não colou. Eu lancei GeraRdo, e ainda bem que só a uma semana da eleição, senão ele ganhava).

O que tinha no dossiê do GeraRdo? Ora isso não interessa. Interessa que o Berzoini (que já tinha feito caca antes) e era o chefe de campanha do Lula (alguém achou que ia dar certo?) comprou um dossiê que falava do GeraRdim. No site da folha http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u83827.shtml aparece aquelas revistinhas “entenda a compra do dossiê”, mas NÃO DIZ ABSOLUTAMENTE NADA SOBRE O QUE ESTAVA ESCRITO NO DITO CUJO. Assim, como vou entender?

A mídia é, definitivamente, o quarto poder, o poder “moderador” do Pedro I.  Mas é muito baixo manipular as intenções de voto assim, na hora H. Devemos lembrar que essa foi uma tática utilizada pela escória reaça durante o equívoco do “referendo”, sobre as armas e aquela coisa toda. Na reta final, a bancada da bala botou o não na cabeça do povo (defenda o seu direito de se defender) e deu no que deu. Escroto.

Agora aposto o mesmo. Se não impugnarem a campanha do Lula (o que pode ocorrer, pois nunca vemos quem é o juiz que, num ímpeto de grandeza, resolve se inscrever nos anais da magnífica “História Nacional”), ele ganha e vai para o PSDB, que é o mesmo que o GeraRdo ganhar. O “Chuchu” Alckmin é o ultraconservador doutor Cataflan que vai esculhambar de vez com as entranhas do Brasil, e entregar sem choro tudo para o Tio Sam e seus amigos. E a esquerda? Aí não tem esquerda. São todos da direita!

Assim, farsa por farsa, estou “torcendo” para dar Heloísa Helena, só pra ver o circo pegar fogo (ou, como diria Itamar Assumpção, para botar “mais lenha nesse inferno”). Mas, infelizmente o brasileiro ainda não tem consciência política. Se tivesse, o “Dia Útil” é que ganharia.

Zizek em espanhol

setembro 25, 2006

Companheiros, sugiro uma passadinha nesta página: http://es.geocities.com/zizekencastellano/index.htm . Simplesmente genial! Lá podemos encontrar vários textos do filósofo esloveno Slavoj Žižek. Tudo “di grátis”!

De cara, vale a pena ler o “Capitalistas, si…, pero zen”. Uma crítica sobre a série de filmes “Guerra nas estrelas”. Além de tudo é divertidíssimo.

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Perdão pelo trocadalho do carilho, mas alguém anotou a placa? Com as declarações estapafúrdias sobre o Islã, proferidas durante discurso na universidade alemã aonde foi professor, o acadêmico cardeal Natzinger, também conhecido como Papa “Bento” XVI, conseguiu implodir décadas de tolerância dos muçulmanos radicais para com os católicos, transformando-os em alvos de extremistas. Uma infelicidade completa se considerarmos que se trata de um líder religioso, mas como não somos religiosos, isto pouco nos interessa. 

Um pequeno parênteses: não conseguimos a transcrição completa de seu discurso, e não nos responsabilizamos pela tradução dos trechos encontrados na FSP (http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u56959.shtml). Se alguém tiver o texto na íntegra, por favor, compartilhe, pois seria interessante para analisar mais profundamente.

Daremos especial atenção para o trecho que se segue, uma verdadeira pérola de intolerância e incoerência no discurso. Eis o que hipocritamente diz o papa, ao citar uma conversa do século XIV entre um cruzado e um árabe: “O imperador[leia-se cruzado]/…/ continuou explicando em detalhe os motivos pelos quais espalhar a fé através da violência são desarrazoados. Violência é incompatível com a natureza de Deus e com a natureza da alma [grifo nosso]. “Deus”, ele disse, “não fica contente com sangue –e não agir razoavelmente é contrário à natureza de Deus. A fé nasce da alma, e não do corpo. Qualquer um que leve alguma pessoa à fé precisa da habilidade de falar bem e de raciocinar apropriadamente, sem violência ou ameaças.”“.

Pelo que consta, o deus dos católicos castiga – é aquele que julgará a todos no juízo final, e para os condenados reservam-se as piores desgraças por toda a eternidade. Mas não somos e nem pretendemos ser especialistas nesta querela litúrgica. Analisaremos somente a História.

E sendo assim, os católicos (do grego katholikós, “universal”), estes que têm a verdade universal, revelada, durante séculos mataram, pilharam, estupraram, promoveram a ignorância através da disseminação do analfabetismo (somente os padres podiam ler) e da queima de livros. Alguns afirmam que a humanidade “atrasou-se” em 50 anos aproximadamente. De fato, livros de autores como Platão e Aristóteles – e de outros que nunca conheceremos -desapareceram. O que eles pensavam da natureza de deus naquela época?

E não são estes mesmos católicos que criaram as “cruzadas”, uma série de saques contra o mundo árabe, ou a “terra santa”, época deste provável diálogo entre o “persa” e o “erudito”, citado pelo papa? Permitam-nos uma anedota: nos parece que algo de santo deve haver mesmo por lá, uma vez que há séculos os homens se matam para garantir o assentamento e a posse em um território predominantemente desértico. Isso que é especulação imobiliária!

E o genocídio dos “índios”, ou os povos que estavam estabelecidos nos continentes de ultramar, justificado pelas ordens religiosas, como a dos jesuítas? Percebam como é difícil dar uma denominação adequada à estes povos que por aqui estavam, uma vez que a maioria (ou todos) os registros sobre a colonização do continente são os dos colonizadores, em sua maioria católicos. O que dizer então da escravidão dos africanos, que sequer tinham alma, e assim podiam ser tratados com toda a crueldade sem atribuir culpa ao bom cristão? 

Nos parece que também os católicos tiveram profunda ligação com aquela bárbara série de massacres e perseguições que historicamente se conhece como “Inquisição” – que aterrorizavam a população européia durante negors e longos anos. É esta a habilidade de falar bem e raciocinar apropriadamente?

Há um filme que, na nossa humilde opinião, realiza a cena mais violenta de todo o cinema: “Sétimo Selo”, do diretor sueco Ingmar Bergman. Este filme nos faz imaginar como deve ser horrível viver numa sociedade fundamentada exclusivamente pela religião. A cena a qual nos referimos é a seguinte: a trupe circense está realizando um espetáculo em praça pública, que consegue reunir boa pate dos moradores do vilarejo. Subitamente, ouve-se um som que vai se tornando ensurdecedor. As câmeras então nos revelam uma tétrica procissão de aleijados, mutilados, loucos, beatos e padres, rodeados de cruzes e símbolos de penitência, realizando rituais de auto-flagelação, e entoando “Dies Irae”, uma missa cantada em latim, provavelmente composta no século XII, que na sua letra não faz outra coisa senão inspirar o terror e o medo entre os ouvintes (sorte nossa que o latim é uma língua morta!). Enquanto a procissão passa, podemos ver as pessoas se ajoelharem com uma expressão que mistura medo e asco. O cortejo para, o padre mor diz uma série de bravatas e figuras retóricas a respeito da finitude do homem, isto é, da morte – prevê a morte de alguns espectadores, vale-se de todo o peso ritualístico para tentar “arrebanhar” novos fiéis. Após isto, novamente aqueles farrapos humanos começam a cantar, e seguem se arrastando em seu caminho rumo à promessa de redenção.

Redenção que nunca veio. Um exemplo recente de sua razoável forma de espalhar a palavra de deus nos é dado pelo papa “Pio” XII, que abençoou o terceiro Reich. E como se não bastasse, deriva da teologia católica os atuais “evangélicos”, ou os que “trazem a boa nova”, e que atualmente no Brasil são mais conservadores do que os primeiros.

Pra finalizar,  Natzinger diz que a fé não interfere mais na razão, e que a ciência não é mais objeto de estudo ou de preocupação da religião. E quanto a posição da igreja sobre os contraceptivos, a camisinha, o aborto, a pesquisa sobre o uso de células-tronco, e tantas outras coisas, em que a igreja ainda é fortemente conservadora? Dizer que deus proibe o uso de preservativo em países como Uganda, onde grande parte da população é soropositiva, não é agir com violência?