A temperatura em que o papel queima

setembro 28, 2006

 

Fahrenheit 451 é o título de um livro de Ray Bradbury (http://www.raybradbury.com/books/fahrenheit451.html) na linha de 1984 de George Orwell , e inspirou o diretor François Truffaut a rodar um filme homônimo, único filme seu em inglês. E trata-se de o melhor filme de “ficção científica” de todos os tempos (aguardo a primeira pedra!).

A estória se passa em um futuro não muito distante, onde uma sociedade totalitária é controlada pela “Família”. As pessoas que vivem nessa sociedade são educadas a desempenharem certas funções sociais, sem se questionar muito sobre o que estão de fato realizando. O sucesso deste estado de obediência e paz social deve-se, especialmente, ao cuidado com a educação. Nas escolas, as crianças aprendem a não-ler e que livros são para se queimar.

Assim, somos apresentados ao dócil Montag (Oskar Werner), um bombeiro (fireman) que, ao contrário do que o nome de sua profissão possa sugerir, não tem a tarefa de apagar incêndios (uma vez que as casas são todas a prova de fogo, ou ao menos é isso que a “famíla” diz). Os fireman são responsáveis por atear fogo nos livros, e perseguir, prender e executar as pessoas encontradas junto aos livros. Algo como a Gestapo ou a PM.

é fogo!

Tudo vai bem com Montag. Ele queima livros, faz seu trabalho, e se sente feliz e normal. Está prestes a ser promovido a capitão. Sua bela esposa vive tranquila e feliz em seu lar, sempre envolvida em seus programas de TV (aliás, é magnífica a cena do programa de tv interativo. Penso que farão da TV digital algo semelhante). É a paz soberana, a suma felicidade.

Entretanto, Montag começa a se inquietar quando é questionado por uma jovem da resistência se ele alguma vez havia lido um dos milhões de livros que queimou.

–Detalhe da resistência (tão poético!): já que não se pode guardar os livros, seus guerrilheiros devem decorar na íntegra seus livros prediletos. Assim, acabam por se tornar os próprios livros. Vivem em uma comunidade-biblioteca. É sensacional.

Montag então começa a ler. E compreende porque a Família sempre havia alertado sobre a periculosidade dos livros: eles propiciam o pensar por si mesmo. E quando você começa questionar as coisas, deixa de ser feliz. Por que? A sociedade revela-se para Montag como algo horrível.

Ele se dá conta de que é dominado, e que não é um membro da Família, como esta pretendia. Entende que ser um parente desta coisa é algo abominável, e que a felicidade e a paz não são tão felizes e pacíficas como se imaginava. Decide então colaborar com a resistência, e prepara uma estratégia para tentar derrubar a Família e livrar o povo de suas viseiras. No entanto, não vemos no filme o desfecho deste contra-golpe.

Acredito que Truffaut, inspirado nos mais belos ideais pré maio de 68 (o filme é de 1966), deixa em aberto o confronto final por razões óbvias. Este futuro não muito distante é aqui em nossa contemporaneidade; a sociedade totalitária é esta sociedade de consumo, da ideologia do capital, que impõe o pensamento único, o individualismo, a “ordem”.

O paralelo, infelizmente, por muitas vezes cruza com o real. Portanto, penso que devemos reconhecer que, de 68 pra cá, sem dúvida, a resistência tem sofrido derrotas amargas e sucessivas. Me apoio no Zizek para defender que um dos equívocos mais sérios, e que ironizam sem piedade os tais “radicais de esquerda” da atualidade, está no lema herdado daquela época: sejamos realistas, exijamos o impossível. Justamente. Se os tais radicais de esquerda da atualidade exigissem o possível, estariam arriscando sua própria posição privilegiada dentro da sociedade, que é a de poder se dar ao luxo de ser radical de esquerda.

Continuo com minha campanha pelo Voto no Dia Útil. Ao invés de participarem deste festival demagógico, que tem o nome de “eleições”, que a data agendada para o evento se transforme em um dia de reflexão sobre o que de fato queremos como sociedade; o que é e o que significa. Assim, transformamos este ultraje contra a democracia em um dia realmente útil para o país. Acho incrível como os generais da ditadura ainda respiram. Diria mais, que desenvolveram um projeto de “ditadura branca”, isto é, não precisam nem mais aparecer para que seus interesses e de seus aliados sejam defendidos e preservados. A luta pelas “Diretas Já” (embora reconheça todos os avanços que ela trouxe no que diz respeito às liberdades civis) fracassou. Ela permitiu que, descaradamente, pessoas ligadas ao regime ditatorial se envolvessem na política “livre”, como é o caso de Sarney, Maluf, Tuma (que era do DOI-CODI!!!), ACM, Delfim Neto, entre tantos outros. Agora podemos votar. Mas somente (ou em grande parte) nesta trupe de gangsters. Que beleza.

VOTE VOCÊ TAMBÉM POR UM DIA ÚTIL!

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10 Respostas to “A temperatura em que o papel queima”

  1. J.Vilsemar said

    Olá!

    – Assisti este filme. É parecido em alguns pontos realmente com a história de George Orwell em sua magnífica obra “1984”. O que me assusta é que verifico nas mídias em geral e em alertas de escritores (por ex. “Hitler ganhou a guerra” de Walter Graziano e todos os livros de Noan Chomski) que isto pode acontecer em um futuro não distante, mas na prática já vem acontecendo via globalização com as sua mazelas dissiminadas pelo planeta a fora. A saída seria uma educação transdisicplinar? (veja http://vincit3.blogspot.com/), mas será que os políticos irão permitir? Gostaria da sua opinião no site referido.

  2. Giovana said

    Ei,

    Brigada! Eu estou fazendo um trabalho na escola sobre esse filme e digo que você ajudou bastante! Parabéns, viu? Vc escreve muito muito bem e não tem noção o quanto ajudou.

    Boa sorte com o site,
    Giovana.

  3. Giovana, tens certeza disso? Que fique claro: não me responsabilizo por uma possível “bomba”, esta decisão é por sua conta e risco.

    Ademais, queria saber que escola bacana é essa que você estuda, pra ter um filme tão legal como tema de trabalho.

    Abraço,
    Henrique

  4. vilma said

    Assisti este filme por indicaçao do meu processor de direito processual,achei muito bom não precisou nem de efeitos especiais para ser taõ realista, principalmente a parte da televisão e algumas mulheres.

  5. Cecília said

    Olha só. Coloquei o nome do filme no google e seu blog foi a terceira opção. Só perdeu para a wikipédia. Muito boa sua crítica. Também estou fazendo um trabalho para “escola”. Um beijo.

  6. Lella said

    Sinceramente… argumentoooo perfeito!
    Estou na faculdade, e precisava ler alguns comentarios sobre o livro. O seu comentario foi mais d encontro com o meu do que qq um.
    Queimarão a intelectualidade, o pensamento livre e o aprisionarao em uma tv, onde ensinarao a sentar na sala o olha-la fixamente, lhe fazendo perder qq q seja o senso de realidade.

    quero mto assistir esse filme, por acaso sabe onde?

    ||
    *

  7. janaina said

    oi queria saber
    1)O que significa farenheit 451?
    2)Qual era o momento historico mundial quando o filme foi produzido.
    3)como transformar 451ºF para cº

  8. Poxa D. Janaína rainha do mar, faço o seguinte:

    1- Assita o filme que saberás o que é F451.
    2- Procure no google quando o filme foi feito, e, a partir daí, elabore uma pesquisa histórica (garanto que não é uma coisa difícil, você consegue).
    3- Passe a frequentar suas aulas de física no colégio!

    ajudei? abraços e té mais!

  9. Claudio Marangon said

    Olá,

    Gostei da sua resenha sobre este filme, a resposta acima também foi ótima.
    Em um momento do filme, onde o capitão e Montag estão queimando os livros, Montag pergunta o por que de queima-los, e a resposta do Capitão é “Os livros são proibidos, pois tornam as pessoas anti-socias e infelizes”.
    Ai eu pergunto, anti-social? Basta analisar o filme, e veremos que a vida das personagens se resume à assistir TV, e claro, aceitar toda sua idelogia, regras, padrões e cultura impostas pela grande mídia.

    Quanto a felicidade… não é nem preciso comentar.
    Abraços… e parabens pelo post…

  10. Paulo Santos said

    Se o autor da resenha fosse médico se paciente certamente morreria pois acerta no diagnostico do filme mas erra no remédio. Comparar a sociedade totalitária do filme com a sociedade de consumo atual e algo que somente pode passar na cabeça de algum comunistinha de merda que não consegue se reconhecer no filme. E é isso de que se trata o filme: totalitarismo que só encontramos nos regimes comunistas.

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