“Foi um sonho” (a cantora Sandy, sobre sua lua de mel).

Tava guardando pra quê, querida? Francamente…

De todo modo, aproveita que inaugurou e vem navegar no mar da esbórnia. Saiba que nunca é tarde para se casar com a humanidade!

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A frase do título foi proferida por Ranulpho, personagem do belo filme Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, indicado pelo Ministério da Cultura para concorrer ao oscar de melhor filme estrangeiro. Pensamos que esta frase sintetiza com uma perspicácia admirável a lógica do “mais forte sobrevive”, sinal claro da finalidade última do capitalismo. Poderia ser isto o motivo pelo qual as pessoas se submetem a um sistema tão cruel e deficiente? Não vemos esta afirmação representada em escala internacional por todas estas ‘fusões’, ‘holdings’ e ‘corporações’ que se engolem umas às outras, ou impregnada nas relações de trabalho?

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Quando um retirante, em 1942, no meio da caatinga a diz, ela ganha um significado ainda mais forte, uma vez que até mesmo ele, um retirante no meio da caatinga, admite que seja mesmo muito bom estar no topo desta ‘cadeia alimentar’; ser o bicho maior de todos, um tubarão, carcará ou magnata. O pior é que incorporou esta lógica de modo negativo: está subjugado por ela mas não se reconhece como tal: imagina-se perfeitamente capaz de ascender socialmente (mediante o imprescindível auxílio do ‘Deus’ trabalho); poderá ele também um dia exercer o papel social de bicho que come, e não mais o de que é comido.

Isto nos impõe uma dificuldade. Se ele desconfia que pode um dia vir a ser um bicho que come, então reconhece que, ao menos momentâneamente, é uma presa e não o predador. No entanto, pensamos que isto é falso, pois o problema é um pouco mais complicado. De fato, ele reconhecerá no outro a figura da presa, mas nunca em si mesmo. Acreditamos que, salvo as raras exceções, a minoria que se identifica como presa adere de forma ainda mais profunda à esta lógica (nas figuras dos beatos, crentes, capatazes, seguranças, etc.). Ou torna-se um renegado, um marginal, esboçado pelo “não tenho nada a perder”. 

Dentro desta relação caça-caçador, o filme ainda nos apresenta uma outra figura muito interessante, que é a do alemão Johann, o predador que vira presa. Johann meteu-se no meio da caatinga para fugir dos horrores da guerra, mas não sem meios para se sustentar e não ser como a gente do sertão. Como todo bom colonizador, trouxe suas provisões e meios para multiplicá-las. É um notável revendedor de aspirinas, um ‘medicamento’ que, convenhamos, não nos faz falta nenhuma. Para tanto utiliza o cinema como propaganda, e eis aí o segredo de seu sucesso com as vendas: a sedução da imagem. Por sagacidade ou mero acaso, Johann vai exibir filmes publicitários para pessoas que sequer sabiam da existência de uma coisa como o cinema. Bingo.

No entanto, com a acentuação dos conflitos na Europa, e a subseqüente entrada do Brasil no conflito contra a Alemanha, as “otoridadis” locais, ou “puliça”, passam a não ver com bons olhos um alemão em terras tupiniquins (seria um espião?). O clima beligerante era bastante imprevisível de fato. Como prever isto, um gorduchinho milico sul-americano se voltar contra o mestre? Na verdade ele não se voltou contra o mestre, apenas passou a seguir outro tão idiota quanto.

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Isso chega a atrapalhar os planos de ‘capitalização’ de Johann, que se vê obrigado a mudar de tática (devemos lembrar que é mito esta coisa do colonizador nobre, herói ou tipo; na verdade, em seu país de origem o colonizador era majoritariamente o subalterno, o excluído, que enxergava no ‘novo’ mundo a possibilidade de enriquecer, coisa que de fato aconteceu e acontece até hoje).

Ainda assim, vemos Johann safar-se parcialmente quando consegue vender toda a carga de aspirinas a um empresário visionário da caatinga. No entanto, o medo de ser enviado para um campo de concentração e devolvido para a Europa, faz com que o alemão escolha embrenhar-se no meio dos seringais da Amazônia, destino prontamente recusado por Ranulpho. Este imagina a Amazônia como terra de selvagens, onde deve ser muito pior do que a caatinga – um lugar desolado, com ambiente hostil e adverso ao homem (percebam como é sempre o outro quem está danado).

Bem-sucedida a trama deste road-movie, quando nos apresenta, sem estereotipar, dois personagens marcantes para a história do país: o colonizador em busca de riquezas e o sertanejo que foge da miséria da seca para a miséria das capitais – que foram (são) construídas (em sua maioria) graças a exploração da mão-de-obra dos nordestinos.  Detalhe para a excelente fotografia de Mauro Pinheiro Júnior: podemos até mesmo sentir o calor do agreste. A luz a pino, o branco estourado, nos permitem imaginar toda a secura de um dia quente e poeirento no sertão.  Secura essa que transborda e se derrama sobre as personagens, suas relações e seus diálogos. Assista.

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