Mike Austin

março 27, 2007

Domingo passado, 1h30 da madrugada. O camarada me parou no meio da Alameda Santos. Cabelo castanho-claro desgrenhado e à moda do séc. XVIII (com aquele rabicó ridículo), olhos verdes, barbicha rala, linhas de expressão bem fortes, pinta de gringo – ainda que maltrapilho. Chegou falando um inglês perfeito, com sotaque do USAeabUSA e tudo mais. Segundo ele, não sabia português pois era um recém chegado ao Brasil. Apresentou-se como “Mike Austin”, professor da Graded School, uma escola bilingüe para os bem-nascidos da metrópole tupiniquim. Contou-me que no início da noite havia sido assaltado por dois pivetes na porta da FNAC da Paulista, e estes larápios tinham-lhe levado tudo (carteira, telefone, cartões de banco). Passou mais de três horas dentro da delegacia de polícia fazendo um B.O, e que os policiais não o compreendiam e não puderam ajudá-lo. Contou que morava no Brooklin e que precisava que alguém lhe desse uma carona, ou lhe emprestasse o dinheiro do táxi, afinal, naquele horário já não haviam mais ônibus. Afirmou que era difícil acreditar num papo daqueles numa cidade tão grande como São Paulo, perigosa, mas que eu o ajudasse por caridade, que ele poderia me devolver a bufunfa no dia seguinte sem probelmas. Estava com fome, cansado, e deveria acordar bem cedo no dia seguinte para trabalhar.

Convencidos? Pois eu fiquei. Tentei, com meu inglês macarrônico, dizer ao gringo que era um estudante, ou seja, um fudido, que não tinha um puto no bolso, que só o banco guardava ainda uma mixaria. Prontamente o Mike (ah, esse Mike!) me explicou que havia um caixa-eletrônico nas redondezas, ele sabia disso pois tinha ido pedir dinheiro lá por perto. Fomos até o Pão de Açúcar que tem ali na Consolação com a Paulista. A porcaria do caixa 24h só tinha notas de 50. Dei uma para o Mike. Com lágrimas nos olhos, nos despedimos, não sem antes o Mike, extremamente agradecido, fazer questão de me dar o seu e-mail (mikeaustin@yahoo.com) e o telefone da Heloísa (11 3778.4218), secretária da Graded School. Pediu para que eu entrasse em contato na manhã seguinte pois havia de me devolver a grana sem falta. Fui embora preenchido por aquele sentimento da caridade cristã, tão bom e tão sublime, de ajudar o próximo…

Malditos cristãos! Antes tivessem me ensinado que o ‘mundo de Deus’ não existe, e nosso planetinha chechelento está é cheio de filhos da puta! Caí no famigerado “Golpe do Gringo”. Cheguei em casa naquele dia, e, com a “pulga atrás da orelha”, resolvi mandar um e-mail pro Mike, que voltou em seguida. Telefonei e descobri que o número não existe. Ai que ódio! Que vontade de matar! Até agora estou com gastrite, e resolvi escrever como se fosse uma terapia, algo para me livrar do Mike e da caridade e dos cristãos molengas. Espero também prevenir minhas leitoras sobre o “golpe do gringo”.

 O caso é que o ocorrido me deixou pensativo. Assim, meditabundo mesmo. Quantos brasileiros já vieram me pedir dinheiro contanto histórias semelhantes? Imploraram mesmo que eu os ajudasse, sendo que as histórias eram inclusive mais dramáticas e tristes… e o que fiz? Dei um sonoro “NÃO” grátis. Isso é o que me deixa mais transtornado. Fui dar meu contado dinheirinho justamente para um gringo, absolutamente dentro da lógica do “don’t kill me, i’m your friend” (vão treinando, pois esta é uma frase muito útil para quando os marines chegarem). Ajudei o cara porque ele falava inglês, e, aqui na “filial”, quem fala a língua do império não é “pé rapado”, justamente porque se entende que alguém que fale a “língua geral” está bem de vida, consegue trabalho, honra seus compromissos, é “civilizado”, “ocidental”, em suma, é alguém gente fina.

Digitei no google “Mike Austin São Paulo” e encontrei mais três pessoas que também foram vítimas do Mike:

(http://trintaetres.zip.net/;

http://piadapronta.blogspot.com/ e 

http://abandonartotalmente.weblogger.terra.com.br/200701_abandonartotalmente_arquivo.htm)

 Há até uma singela comunidade no orkut: “Mike Austin – Eu caí”, da qual, com pesar, agora faço parte.

Como se não bastasse a malandragem que já era sentida por aqui, passamos a importar canalhas.

Viva o Brasil.

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