Nossa, o que é que aconteceu? Na mesma semana, dois gênios do cinema se foram: Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni.

Estou tão chocado e triste que não sei o que escrever. Apenas recomendo que assistam e discutam todos os seus filmes.
Desejo também um “boa sorte” para nós que sobramos, pois é certo que ficaremos com menos arte e mais “Transformers” e bloquebosters do gênero daqui por diante.

abraços,

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Pantaleão e as visitadoras

fevereiro 4, 2007

Antes de mais, leiam isto: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u131316.shtml. Se quiserem ver com seus próprios olhos, eis o site: http://www.toursgonewild.com/index.asp.

Sem mais delongas: todo e qualquer militar estadunidense destacado para o combate no Iraque está automaticamente inserido no programa de “Descanso e Recuperação” promovido pelo Departamento de Defesa dos EUA, que consiste basicamente na prática do turismo sexual nas praias do Rio de Janeiro, e em outras localidades do lado debaixo do Equador, lá mesmo, aonde não existe pecado.

Uma paródia deste tipo de “tática” militar aparece na apimentada produção peruana “Pantaleão e as visitadoras”, dirigido por Francisco J. Lombardi, baseado no livro homônimo do escritor de mesma nacionalidade Mario Vargas Llosa (http://www.clubcultura.com/clubliteratura/clubescritores/vargasllosa/).

O filme nos leva para a amazônia peruana, onde encontramos um exemplo de militar – Panteleão Pantoja, capitão do exército do Peru, designado por seus superiores para uma missão de suma importância: implantar o programa de “Descanso e Recuperação” para os soldados envolvidos com missões na selva.

E, como um bom soldado, o capitão “Panta” embrenha-se na mata não tão virgem para criar seu batalhão de “visitadoras”, as mulheres responsáveis pelo atendimento em si do programa. Seu destacamento percorre os rios da Amazônia atendendo todos os bravos soldados que há tempos não têm este tipo de descanso (a despeito das estripulias gays que ocorrem nos quartéis). Logo comemoram a marca de 20.000 atendimentos, um recorde para a pacata localidade de Iquitos.

Destaque para a ira da população ribeirinha que, inconformada, persegue o barco das visitadoras almejando também sua inserção no programa. “Também somos homens”, dizem eles.

Colombiana e seus “pacientes”

O que nos chama atenção é a total subversão da norma que se procura implementar: um órgão legal, funcionando com dinheiro público, promovendo a escravidão de mulheres em nome do “ânimo” exaltado de suas tropas em exercício. E, embora o filme faça tudo para parecer o mais absurdo possível, como vimos, está é uma prática recorrente nas instituições militares como um todo.

Com efeito, temos aqui um exemplo da configuração daquele poder sobre o corpo que Foucault nos fala: constituído por sanções normalizadoras e técnicas de vigilância, por uma organização do espaço das instituições que permite uma visão pan-óptica de seus elementos, ou seja, o ‘poder disciplinar’.

Foucault afirma que a formação de uma sociedade normalizadora é uma conseqüência da expansão do biopoder, e, se por um lado cabe aos mecanismos reguladores e corretivos controlar e eliminar as anomalias do corpo social, por outro eles assumem a função de produzi-las, avaliá-las e classificá-las, de modo que a norma pode ser aplicada a uma população que se quer regulamentar, bem como a um corpo que se deseja disciplinar. Assim, esta sociedade de normalização é fundamentalmente constituída pelo cruzamento da norma disciplinar com a da regulamentação. Afirmar que esta normatização conseguiu cobrir a totalidade da superfície que se estende do orgânico até o biológico significa dizer que ela se encarregou da vida, do corpo até a população, mediante o jogo duplo das tecnologias da disciplina de uma parte, e das tecnologias de regulamentação de outra.

Pantaleão e Colombiana

Assim, convido as senhoras(es) a refletir se propiciar aventuras sexuais para os soldados serve como exemplo ou não da maneira como operam as ténicas que visam tornar o corpo “útil e dócil”.

Fogo e sal minha gente!

A frase do título foi proferida por Ranulpho, personagem do belo filme Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, indicado pelo Ministério da Cultura para concorrer ao oscar de melhor filme estrangeiro. Pensamos que esta frase sintetiza com uma perspicácia admirável a lógica do “mais forte sobrevive”, sinal claro da finalidade última do capitalismo. Poderia ser isto o motivo pelo qual as pessoas se submetem a um sistema tão cruel e deficiente? Não vemos esta afirmação representada em escala internacional por todas estas ‘fusões’, ‘holdings’ e ‘corporações’ que se engolem umas às outras, ou impregnada nas relações de trabalho?

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Quando um retirante, em 1942, no meio da caatinga a diz, ela ganha um significado ainda mais forte, uma vez que até mesmo ele, um retirante no meio da caatinga, admite que seja mesmo muito bom estar no topo desta ‘cadeia alimentar’; ser o bicho maior de todos, um tubarão, carcará ou magnata. O pior é que incorporou esta lógica de modo negativo: está subjugado por ela mas não se reconhece como tal: imagina-se perfeitamente capaz de ascender socialmente (mediante o imprescindível auxílio do ‘Deus’ trabalho); poderá ele também um dia exercer o papel social de bicho que come, e não mais o de que é comido.

Isto nos impõe uma dificuldade. Se ele desconfia que pode um dia vir a ser um bicho que come, então reconhece que, ao menos momentâneamente, é uma presa e não o predador. No entanto, pensamos que isto é falso, pois o problema é um pouco mais complicado. De fato, ele reconhecerá no outro a figura da presa, mas nunca em si mesmo. Acreditamos que, salvo as raras exceções, a minoria que se identifica como presa adere de forma ainda mais profunda à esta lógica (nas figuras dos beatos, crentes, capatazes, seguranças, etc.). Ou torna-se um renegado, um marginal, esboçado pelo “não tenho nada a perder”. 

Dentro desta relação caça-caçador, o filme ainda nos apresenta uma outra figura muito interessante, que é a do alemão Johann, o predador que vira presa. Johann meteu-se no meio da caatinga para fugir dos horrores da guerra, mas não sem meios para se sustentar e não ser como a gente do sertão. Como todo bom colonizador, trouxe suas provisões e meios para multiplicá-las. É um notável revendedor de aspirinas, um ‘medicamento’ que, convenhamos, não nos faz falta nenhuma. Para tanto utiliza o cinema como propaganda, e eis aí o segredo de seu sucesso com as vendas: a sedução da imagem. Por sagacidade ou mero acaso, Johann vai exibir filmes publicitários para pessoas que sequer sabiam da existência de uma coisa como o cinema. Bingo.

No entanto, com a acentuação dos conflitos na Europa, e a subseqüente entrada do Brasil no conflito contra a Alemanha, as “otoridadis” locais, ou “puliça”, passam a não ver com bons olhos um alemão em terras tupiniquins (seria um espião?). O clima beligerante era bastante imprevisível de fato. Como prever isto, um gorduchinho milico sul-americano se voltar contra o mestre? Na verdade ele não se voltou contra o mestre, apenas passou a seguir outro tão idiota quanto.

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Isso chega a atrapalhar os planos de ‘capitalização’ de Johann, que se vê obrigado a mudar de tática (devemos lembrar que é mito esta coisa do colonizador nobre, herói ou tipo; na verdade, em seu país de origem o colonizador era majoritariamente o subalterno, o excluído, que enxergava no ‘novo’ mundo a possibilidade de enriquecer, coisa que de fato aconteceu e acontece até hoje).

Ainda assim, vemos Johann safar-se parcialmente quando consegue vender toda a carga de aspirinas a um empresário visionário da caatinga. No entanto, o medo de ser enviado para um campo de concentração e devolvido para a Europa, faz com que o alemão escolha embrenhar-se no meio dos seringais da Amazônia, destino prontamente recusado por Ranulpho. Este imagina a Amazônia como terra de selvagens, onde deve ser muito pior do que a caatinga – um lugar desolado, com ambiente hostil e adverso ao homem (percebam como é sempre o outro quem está danado).

Bem-sucedida a trama deste road-movie, quando nos apresenta, sem estereotipar, dois personagens marcantes para a história do país: o colonizador em busca de riquezas e o sertanejo que foge da miséria da seca para a miséria das capitais – que foram (são) construídas (em sua maioria) graças a exploração da mão-de-obra dos nordestinos.  Detalhe para a excelente fotografia de Mauro Pinheiro Júnior: podemos até mesmo sentir o calor do agreste. A luz a pino, o branco estourado, nos permitem imaginar toda a secura de um dia quente e poeirento no sertão.  Secura essa que transborda e se derrama sobre as personagens, suas relações e seus diálogos. Assista.

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Fahrenheit 451 é o título de um livro de Ray Bradbury (http://www.raybradbury.com/books/fahrenheit451.html) na linha de 1984 de George Orwell , e inspirou o diretor François Truffaut a rodar um filme homônimo, único filme seu em inglês. E trata-se de o melhor filme de “ficção científica” de todos os tempos (aguardo a primeira pedra!).

A estória se passa em um futuro não muito distante, onde uma sociedade totalitária é controlada pela “Família”. As pessoas que vivem nessa sociedade são educadas a desempenharem certas funções sociais, sem se questionar muito sobre o que estão de fato realizando. O sucesso deste estado de obediência e paz social deve-se, especialmente, ao cuidado com a educação. Nas escolas, as crianças aprendem a não-ler e que livros são para se queimar.

Assim, somos apresentados ao dócil Montag (Oskar Werner), um bombeiro (fireman) que, ao contrário do que o nome de sua profissão possa sugerir, não tem a tarefa de apagar incêndios (uma vez que as casas são todas a prova de fogo, ou ao menos é isso que a “famíla” diz). Os fireman são responsáveis por atear fogo nos livros, e perseguir, prender e executar as pessoas encontradas junto aos livros. Algo como a Gestapo ou a PM.

é fogo!

Tudo vai bem com Montag. Ele queima livros, faz seu trabalho, e se sente feliz e normal. Está prestes a ser promovido a capitão. Sua bela esposa vive tranquila e feliz em seu lar, sempre envolvida em seus programas de TV (aliás, é magnífica a cena do programa de tv interativo. Penso que farão da TV digital algo semelhante). É a paz soberana, a suma felicidade.

Entretanto, Montag começa a se inquietar quando é questionado por uma jovem da resistência se ele alguma vez havia lido um dos milhões de livros que queimou.

–Detalhe da resistência (tão poético!): já que não se pode guardar os livros, seus guerrilheiros devem decorar na íntegra seus livros prediletos. Assim, acabam por se tornar os próprios livros. Vivem em uma comunidade-biblioteca. É sensacional.

Montag então começa a ler. E compreende porque a Família sempre havia alertado sobre a periculosidade dos livros: eles propiciam o pensar por si mesmo. E quando você começa questionar as coisas, deixa de ser feliz. Por que? A sociedade revela-se para Montag como algo horrível.

Ele se dá conta de que é dominado, e que não é um membro da Família, como esta pretendia. Entende que ser um parente desta coisa é algo abominável, e que a felicidade e a paz não são tão felizes e pacíficas como se imaginava. Decide então colaborar com a resistência, e prepara uma estratégia para tentar derrubar a Família e livrar o povo de suas viseiras. No entanto, não vemos no filme o desfecho deste contra-golpe.

Acredito que Truffaut, inspirado nos mais belos ideais pré maio de 68 (o filme é de 1966), deixa em aberto o confronto final por razões óbvias. Este futuro não muito distante é aqui em nossa contemporaneidade; a sociedade totalitária é esta sociedade de consumo, da ideologia do capital, que impõe o pensamento único, o individualismo, a “ordem”.

O paralelo, infelizmente, por muitas vezes cruza com o real. Portanto, penso que devemos reconhecer que, de 68 pra cá, sem dúvida, a resistência tem sofrido derrotas amargas e sucessivas. Me apoio no Zizek para defender que um dos equívocos mais sérios, e que ironizam sem piedade os tais “radicais de esquerda” da atualidade, está no lema herdado daquela época: sejamos realistas, exijamos o impossível. Justamente. Se os tais radicais de esquerda da atualidade exigissem o possível, estariam arriscando sua própria posição privilegiada dentro da sociedade, que é a de poder se dar ao luxo de ser radical de esquerda.

Continuo com minha campanha pelo Voto no Dia Útil. Ao invés de participarem deste festival demagógico, que tem o nome de “eleições”, que a data agendada para o evento se transforme em um dia de reflexão sobre o que de fato queremos como sociedade; o que é e o que significa. Assim, transformamos este ultraje contra a democracia em um dia realmente útil para o país. Acho incrível como os generais da ditadura ainda respiram. Diria mais, que desenvolveram um projeto de “ditadura branca”, isto é, não precisam nem mais aparecer para que seus interesses e de seus aliados sejam defendidos e preservados. A luta pelas “Diretas Já” (embora reconheça todos os avanços que ela trouxe no que diz respeito às liberdades civis) fracassou. Ela permitiu que, descaradamente, pessoas ligadas ao regime ditatorial se envolvessem na política “livre”, como é o caso de Sarney, Maluf, Tuma (que era do DOI-CODI!!!), ACM, Delfim Neto, entre tantos outros. Agora podemos votar. Mas somente (ou em grande parte) nesta trupe de gangsters. Que beleza.

VOTE VOCÊ TAMBÉM POR UM DIA ÚTIL!