Por que temer a direita?

outubro 1, 2006

Ouçam senhoras(es) http://veja.abril.com.br/idade/podcasts/mainardi/audios/280706.mp3

Se dizem defensores da democracia, mas defendem um “tapetão” no caso de uma vitória do adversário. Um deles chegou a se declarar golpista. Que medo!

O que será de nós após o pleito?

Tudo bem, Carandiru não é um filme que mereça um comentário sério. Mas como aqui não queremos nada com a seriedade, vamos arriscar certas considerações sobre este filme de Hector Babenco, um diretor que até produziu filmes acima da média, como Pixote ou O Beijo da Mulher Aranha. Mas não se engane leitor, queremos na verdade aproveitar o gancho e espinafrar o Ubiratan 111 – o coronel que comandou o massacre no presídio, e que após este grande feito conseguiu se eleger deputado, passando a integrar a não menos nobre “bancada da bala”.

O filme, com efeito, é tão mediano que nem aparece na biografia que consta no site oficial do diretor (http://www2.uol.com.br/hectorbabenco/diretor.htm). O caso é que se trata de mais um desses “Globo Filme”, isto é, uma novela de cerca de 1h30, com artistas consagrados da “telinha”, e que simbolizam o carro-chefe desta retomada do cinema nacional. Eis aqui o que se compreende por retomada: o lucro, o filme-investimento que, devido a apelação dentro do eixo sexo-violência, é capaz de atrair patrocinadores e ter uma grande bilheteria. É a lógica hollywoddiana…

Uma pena, já que um evento como este não deveria ter sido registrado dessa maneira. O massacre do Pavilhão 9 denuncia uma prática vigente no Estado de Exceção, que é a eliminação do mais fraco, a dispensa da sobra, o corte do excedente. Ubiratan e seus comandados da Polícia Militar representam o monopólio da violência por parte do Estado, o grupo de soldados armados e treinados, prontos para intervir e defender os interesses do Estado a qualquer momento. Supõe-se, equivocadamente, que os interesses do Estado sejam os mesmos do Povo, mas não é assim que funciona no Brasil. Aqui os interesses do Estado são o controle das massas, a proteção da propriedade e do patrimônio (dos que têm propriedade e patrimônio), e mantenção da “paz” a da Ordem. Em outras palavras: garantir através das armas que tudo permanecerá como está, isto é, que as elites continuarão no poder ocupando a posição de opressores.

Em uma singela nota explicativa da “Canção da PM” (http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp) lê-se: “[a PM] incorpora à sua missão os valores da ética cristã: absoluto respeito à vida, à integridade física e à dignidade humana, caridade, fé, esperança, coragem para denunciar, enfrentar e resistir ao mal, sede de justiça e de verdade, amor à paz”. Não é lindo? Deviam ter colocado este trecho na abertura do filme. Fiquei tão atônito ao ler isto que não sei qual parte me choca mais. O texto na íntegra é uma pérola! Muito elucidativo sobre a história da corporação e o que ela representa. O fato é que neste país, cadeias sempre foram depósitos de pessoas. Lugar para tudo aquilo que não pode conviver socialmente, o marginal, que está do lado de fora e que perturba a Ordem dos humanos direitos. E a polícia treinada de acordo com esta lógica é muito competente, uma vez que até mesmo as delegacias estão abarrotadas de pessoas. Alguém já se perguntou porquê temos tantos “bandidos”?

Se eu não tivesse o que comer, fosse analfabeto e tivesse nascido numa favela, certamente seria um integrante das linhas de frente do tráfico. Penso ser este o motivo que leva muitos jovens a seguirem pela criminalidade. Pois, dentro do Estado de Exceção, eles são justamente o excedente; o Estado não é para eles. Devem engrossar as fileiras de um exército anterior ao do crime, que é o de mão-de-obra barata, o da massa de manobra ignorante e alienada, que elege sempre os mesmos canalhas – que, obviamente, são seus opressores. E, num jogo macabro de dupla exclusão, não podem sequer reclamar: a polícia está aí também para coibir qualquer tipo de ação libertária que possam vir a ter.

Nesse sentido, o Ubiratan foi supervalorizado. Como o peão do jogo de xadrez, tornou-se o sacrificado em prol da sobrevivência do rei. No caso, o sistema é o rei, e é anterior ao próprio Ubiratan. É o Estado que o criou, e tem a necessidade de continuar a criar milhares de coronéis, tenentes, soldados e outras patentes de assassinos profissionais treinados e armados. Numa visão hobbesiana, a polícia está representada como a espada do Leviatã, e é a única capaz de manter a todos em respeito através do terror inspirado. Ubiratan cumpriu seu papel com louvor: de uma só tacada despachou 111 presos, coisas que seus chefes adorariam ter tido meios para fazê-lo (devemos lembrar que o Governador do Estado era o Fleury).

De fato, o homem era um criminoso, um genocida. Mas culpá-lo sem fazer a crítica nos leva a retirar do banco dos réus seus chefes. O filme é ruim por não conseguir mostrar isso (como não li, não posso opinar sobre o livro do Dráuzio Varella): não mostra as relações de poder que estão por trás do Ubiratan 111 e do Carandiru. Fraco.

Dia desses jantei com amigos em um desses restaurantes de São Paulo que colocam mesas nas calçadas, e são frequentados por estudantes, artistas, profissionais do sexo e “intelectuais de esquerda”. Lá, nos deparamos com uma cena que perfeitamente poderia ter saído de um filme de Sérgio Bianchi, como A Causa Secreta ou Cronicamente InviávelQuanto Vale ou é por quilo?.

Nós, que já estávamos no derradeiro cigarro com café – aquele que simboliza o encerramento das atividades gastronômicas -, fomos interrompidos por um senhor de aproximadamente 60 anos, pobreza estampada na face e na alma, de mãos dadas com uma criança toda sujinha, que no olhar não escondia o sofrimento que sentia. Pedia uns trocados. Não demos por dois motivos: primeiro, a condição social de estudantes impede qualquer ímpeto altruísta; em segundo, acreditamos que este referido altruísmo, que ocorre sob forma similar a um mal súbito, é na verdade uma tentativa de aliviar a consciência sobre a imediata e óbvia constatação da posição privilegiada em que se encontra aquele que é alvo do pedido, que confere como predicado a categoria daquele que pode dar esmolas, frente aquele totalmente desfavorecido. As linhas que se seguem tentarão esboçar este confronto.

Antes, porém, faz-se necessário terminar a estória. Diante de nossa recusa, o senhor com a criança dirigiu-se para as outras mesas, onde o pedido foi sumariamente negado. Até que em determinado momento a criança, que já aparentava estar um tanto quanto doente, desmaiou. E o fez de repente: sem pedir licença (e não se sabe se por uma interpretação tão magnífica que faria inveja a qualquer ator de renome), mas caiu como um saco de batatas; inerte, pesada, estática. Parecia que o tempo havia parado, e todos nós que ali estávamos podíamos observar – por todos os ângulos – o corpo caído daquela criança.

Estes segundos que normalmente antecedem a ação de pessoas que em grupo se deparam com uma catástrofe natural, foram interrompidos pela mais decrépita  demonstração daquilo que popularmente se conhece como “desencargo de consciência”. Para meu espanto, o episódio que se seguiu, embora muito semelhante com os filmes do Bianchi, tinha efeito oposto: era inverossímel por ser real.

E o que ocorreu senhoras(es) é que imediatamente após a catarse inicial, tempo suficiente para que todos no local tivessem se dado conta do ocorrido, algumas mulheres bem vestidas, prontamente acompanhadas pelas demais pessoas que do lado de fora do restaurante estavam – inclusive seus funcionários – de imediato sacaram suas bolsas e carteiras. Parecia até alguma premiação de loteria: o jackpot! Podía-se ver uma avalanche de notas de 20 e de 50, que como num passe de mágica saíam de seus calabouços e iam parar, certeiras, nas mãos enegrecidas daquele velho senhor. Com efeito, um avanço significativo no que diz respeito à generosidade, visto que minutos antes recusaram entregar àquele homem as reles moedinhas que jaziam no fundo de seus bolsos. Agora não. Portavam-se como em um leilão beneficente, aonde o importante era dar o maior lance. E não deixaram que o senhor partisse sem antes o bem aconselhar: incentivaram-no, veementemente, que carregasse a criança para longe dali; que ele desse de comer para ela com o dinheiro e a medicasse, e todas essas coisas que se dizem para os responsáveis pelas crianças.

“Tire isto daqui”. Esta é justamente a posição cínica e ambígua ocupada pela pequeno-burguesia que, se está incapaz de se livrar das adversidades econômicas, dá-se por satisfeita por ainda deter pequenas regalias (como jantar fora, por exemplo). Sabe-se que esta classe média precisará de uma atenção maior por parte do Estado. Tal “cuidado” visa garantir, dentre outras coisas, a invisibilidade das pessoas que sem dúvida sofrem as mazelas do capitalismo, estes que são os integrantes do mar de excluídos do Brasil.

E este estranhamento, isto é, este confronto com o que necessita, o pobre, é comum na narrativa dos filmes de  Bianchi, como no atropelamento do menino de rua em Cronicamente Inviável, ou na irônica expressão “sai pobre!” – proferida por diversos personagens no filme A Causa Secreta. Esta afronta, esta “janela para a realidade”, incomoda, como comprovam os comentários mais comuns ouvidos ao se sair de uma sessão com estas obras: “É real demais”, “Apelativo”, “Não precisa explicitar tanto”, etc. Vale ressaltar a importância que o termo real tem aqui. Mesmo sabendo que se trata de uma obra de ficção, a reação ao ver homens disputando restos de lixo com um cão (Cronicamente), por exemplo, não nos está distante da náusea,e, no entanto, nos é perfeitamente plausível. Plausível porque as pessoas que podem ir até um cinema também constituem, de uma certa forma, este grupo mediano, e assim, são capazes de sentir como que uma cumplicidade na idéia do “fiz minha parte”, ou “isto não é minha culpa”. 

Ao assitir a um desses filmes, ou contingentemente deparar-se com uma cena dessas no desenrolar do cotidiano, há a queda da máscara, o confronto com o espelho.  Se alguém que ali estava, durante o incidente no restaurante, de fato estivesse preocupado com a saúde da criança, teria providenciado o encaminhamento da mesma para um hospital; atentaria para garantir seu bom atendimento no mesmo e daria apoio também para seu acompanhante. E mais, se questionaria o porquê de alguém desmaiar de fome no meio da rua, qual a frequência que isso acontece, quais soluções podem ser encontradas para o problema, quais providências estão sendo tomadas, e assim por diante – passos fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

No entanto, ao imediatamente “presentear” aquele senhor com dinheiro, procurava-se justamente evitar pensar nisso: colocar em discussão a sociedade. Tal atitude não só alivia a consciência, como mantém seu capenga status social. É empurrar a sujeira para baixo do tapete.

Acreditamos que os filmes do Bianchi são perfeitos para ilustrar esta hipocrisia da classe média, e funcionam (devido à sua contundência) como veículo perfeito para provocar o debate sobre a posição histórica da mesma.

 E os senhoras(es), que pensam?