Mais PÃ e menos PAN!

julho 23, 2007

Boa tarde caríssimas leitoras. Antes de prosseguir, devo justificar este longo hiato de mais de 3 meses sem nenhum post: não é nada fácil ser estudante neste país. Além do pires, centenas de outros apetrechos são necessários para (sobre)viver neste nosso Brasil varonil. A coisa tem andado mais do que preta nesses últimos tempos, a água já bateu lá, e a mendicância tornou-se a última alternativa antes de vender o corpo para pagar as contas. Isto é Brasil. Confesso que há tempos ensaiava um novo post, a reformulação do blogue, essas coisas todas. Porém, não foi possível e lamento ter deixado as senhoritas ansiosas por todo este período.

VAI LÁ E PÃ!

O assunto de hoje é a mais nova “lavagem cerebral” a que nos submete a TV, os XV Jogos Pan-Americanos “RIO2007”. Ou melhor, os “XV Pan-American Games, RIO” (deve-se pronunciar R’rReeow). Of course my friend. Nenhum outro país é mais subserviente à matriz que o nosso. Nenhum letreiro de nenhuma modalidade está escrito em português. Afinal, que temos com uma língua morta, símbolo do atraso, do verdadeiro naufrágio da gestão das finanças e da bagaceira intelectual? O lance é write in english que é muito mais beautiful e mudérno, my king. Aliás, lembrem-se: buana don’t kill me, i’m your friend! Vão praticando esta frase colegas, pois será muito útil para o dia em que os marines vierem nos salvar de nós mesmos.

O caso, que recentemente me causou gastrite, é que eu não suporto mais essa história ufanista pra boi dormir de PAN. E é incrível a alternância entre ‘gozo’ e ‘punição’, utilizada para manter a audiência. Você liga a TV (me pergunto a razão pela qual ainda faço isso) e lá está: PAN. Muda de canal e ‘zap’: TAM! Zap: PAN. Zap: TAM. Zap: PAN. Chega!! Prejudicou até mesmo a festa do enterro do lazarento Painho ‘bode-véio’ ACM. O “Toninho Marvadeza” foi deixado de lado. Pô, não deu nem pra comemorar direito!

Sendo assim, lanço mais uma campanha: Mais Pã e menos PAN! Para quem não sabe, Pã (representado na figura abaixo) é uma divindade mitológica, filho de Apolo. Possui diversos significados, e está mais fortemente associado aos rituais “pagãos” pró-fertilidade. Com freqüência também é associado a Dionísio, onde Pã aparece como perseguidor das ninfas, as quais dançam frenéticamente enlouquecidas ao seu redor, a partir do momento em que a divindade começa a tocar sua flauta. Com efeito, por ser um signo da diversidade e da pluralidade, Pã em grego também significa “tudo”, estando na raiz do prefixo PAN (pan-americano significa toda a américa).

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Pois é. Só que o nosso PAN mudérno é um esforço tucano para broxar o Pã que nos interessa – esta figura dionisíaca do desbunde emancipatório, da orgia e da esbórnia. Temas assaz instigantes, pertinentes e esclarecedores, a despeito desta PANaquice atlética tupiniquim que se esforça para fantasiar um Brasil sublime, ainda que inexistente (com o perdão do trocadalho do carilho. Tomo esta liberdade pois vi um comercial da Caixa descaradamente esculhambar e assassinar a quinta do Beethoven: Pã Pã Pã Pããã/Pã Pã Pã Pãããnnnnn. Abaixo os publiciotários!).

Francamente, em um país onde todos os dias há pessoas que morrem de fome, a quantidade fabulosa de dinheiro gasta com a construção de ginásios, quadras e afins é crime, estupidez e desperdício. Nossos eloqüentes demagogos (leia-se governantes) não se cansam de arrotar sobre a importância deste tipo de “investimento”. E para quê? Nossos atletas desnutridos terão alguma chance contra os super-homens yankees? Ademais, é sabido que atletas competitivos estão ligados a instituições sérias de ensino e pesquisa. Pergunto se não há um sentido político em, no Brasil, somente os esportes tradicionalmente ligados à elite contarem com apoio acadêmico de qualidade. E qual o interesse em ‘privar’ a educação de nossos “ídolos” do esporte? A quem interessa formar batalhões de corpos sãos e mentes servis?

Mais Pã minha gente, mais Pã. E tenho dito.

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