Dia desses jantei com amigos em um desses restaurantes de São Paulo que colocam mesas nas calçadas, e são frequentados por estudantes, artistas, profissionais do sexo e “intelectuais de esquerda”. Lá, nos deparamos com uma cena que perfeitamente poderia ter saído de um filme de Sérgio Bianchi, como A Causa Secreta ou Cronicamente InviávelQuanto Vale ou é por quilo?.

Nós, que já estávamos no derradeiro cigarro com café – aquele que simboliza o encerramento das atividades gastronômicas -, fomos interrompidos por um senhor de aproximadamente 60 anos, pobreza estampada na face e na alma, de mãos dadas com uma criança toda sujinha, que no olhar não escondia o sofrimento que sentia. Pedia uns trocados. Não demos por dois motivos: primeiro, a condição social de estudantes impede qualquer ímpeto altruísta; em segundo, acreditamos que este referido altruísmo, que ocorre sob forma similar a um mal súbito, é na verdade uma tentativa de aliviar a consciência sobre a imediata e óbvia constatação da posição privilegiada em que se encontra aquele que é alvo do pedido, que confere como predicado a categoria daquele que pode dar esmolas, frente aquele totalmente desfavorecido. As linhas que se seguem tentarão esboçar este confronto.

Antes, porém, faz-se necessário terminar a estória. Diante de nossa recusa, o senhor com a criança dirigiu-se para as outras mesas, onde o pedido foi sumariamente negado. Até que em determinado momento a criança, que já aparentava estar um tanto quanto doente, desmaiou. E o fez de repente: sem pedir licença (e não se sabe se por uma interpretação tão magnífica que faria inveja a qualquer ator de renome), mas caiu como um saco de batatas; inerte, pesada, estática. Parecia que o tempo havia parado, e todos nós que ali estávamos podíamos observar – por todos os ângulos – o corpo caído daquela criança.

Estes segundos que normalmente antecedem a ação de pessoas que em grupo se deparam com uma catástrofe natural, foram interrompidos pela mais decrépita  demonstração daquilo que popularmente se conhece como “desencargo de consciência”. Para meu espanto, o episódio que se seguiu, embora muito semelhante com os filmes do Bianchi, tinha efeito oposto: era inverossímel por ser real.

E o que ocorreu senhoras(es) é que imediatamente após a catarse inicial, tempo suficiente para que todos no local tivessem se dado conta do ocorrido, algumas mulheres bem vestidas, prontamente acompanhadas pelas demais pessoas que do lado de fora do restaurante estavam – inclusive seus funcionários – de imediato sacaram suas bolsas e carteiras. Parecia até alguma premiação de loteria: o jackpot! Podía-se ver uma avalanche de notas de 20 e de 50, que como num passe de mágica saíam de seus calabouços e iam parar, certeiras, nas mãos enegrecidas daquele velho senhor. Com efeito, um avanço significativo no que diz respeito à generosidade, visto que minutos antes recusaram entregar àquele homem as reles moedinhas que jaziam no fundo de seus bolsos. Agora não. Portavam-se como em um leilão beneficente, aonde o importante era dar o maior lance. E não deixaram que o senhor partisse sem antes o bem aconselhar: incentivaram-no, veementemente, que carregasse a criança para longe dali; que ele desse de comer para ela com o dinheiro e a medicasse, e todas essas coisas que se dizem para os responsáveis pelas crianças.

“Tire isto daqui”. Esta é justamente a posição cínica e ambígua ocupada pela pequeno-burguesia que, se está incapaz de se livrar das adversidades econômicas, dá-se por satisfeita por ainda deter pequenas regalias (como jantar fora, por exemplo). Sabe-se que esta classe média precisará de uma atenção maior por parte do Estado. Tal “cuidado” visa garantir, dentre outras coisas, a invisibilidade das pessoas que sem dúvida sofrem as mazelas do capitalismo, estes que são os integrantes do mar de excluídos do Brasil.

E este estranhamento, isto é, este confronto com o que necessita, o pobre, é comum na narrativa dos filmes de  Bianchi, como no atropelamento do menino de rua em Cronicamente Inviável, ou na irônica expressão “sai pobre!” – proferida por diversos personagens no filme A Causa Secreta. Esta afronta, esta “janela para a realidade”, incomoda, como comprovam os comentários mais comuns ouvidos ao se sair de uma sessão com estas obras: “É real demais”, “Apelativo”, “Não precisa explicitar tanto”, etc. Vale ressaltar a importância que o termo real tem aqui. Mesmo sabendo que se trata de uma obra de ficção, a reação ao ver homens disputando restos de lixo com um cão (Cronicamente), por exemplo, não nos está distante da náusea,e, no entanto, nos é perfeitamente plausível. Plausível porque as pessoas que podem ir até um cinema também constituem, de uma certa forma, este grupo mediano, e assim, são capazes de sentir como que uma cumplicidade na idéia do “fiz minha parte”, ou “isto não é minha culpa”. 

Ao assitir a um desses filmes, ou contingentemente deparar-se com uma cena dessas no desenrolar do cotidiano, há a queda da máscara, o confronto com o espelho.  Se alguém que ali estava, durante o incidente no restaurante, de fato estivesse preocupado com a saúde da criança, teria providenciado o encaminhamento da mesma para um hospital; atentaria para garantir seu bom atendimento no mesmo e daria apoio também para seu acompanhante. E mais, se questionaria o porquê de alguém desmaiar de fome no meio da rua, qual a frequência que isso acontece, quais soluções podem ser encontradas para o problema, quais providências estão sendo tomadas, e assim por diante – passos fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

No entanto, ao imediatamente “presentear” aquele senhor com dinheiro, procurava-se justamente evitar pensar nisso: colocar em discussão a sociedade. Tal atitude não só alivia a consciência, como mantém seu capenga status social. É empurrar a sujeira para baixo do tapete.

Acreditamos que os filmes do Bianchi são perfeitos para ilustrar esta hipocrisia da classe média, e funcionam (devido à sua contundência) como veículo perfeito para provocar o debate sobre a posição histórica da mesma.

 E os senhoras(es), que pensam?